resposta a duas perguntas que me fizeram


a propósito de manucure


- Quais as razões da escolha do libreto? Até que ponto essa escolha teve em mente um determinado resultado musical e/ou dramatúrgico?

Tributo a uma época e a um círculo de artistas que me fascinam e do qual Manucure sintetiza ansiedades e contradições. Por outro lado, dado o frenesim do próprio poema e do que ele tem de futurista (seja ou não blague), pareceu-me ideal para uma ópera breve. O desafio foi expandir em significações o já de si fervilhante delírio: aqui enfatizar, ali contrariar, aqui prolongar o absurdo, ali levar ao cúmulo da sátira o ambiente proposto. 

Vi no poema, em estado bruto, uma quase partitura e um quase libreto. Foram poucas as alterações ao texto original. O poeta, barítono, canta o delírio quase integral: se o não ouvimos nalguns poucos  versos, é porque estes se materializaram num gesto cénico ou numa metáfora sonora. 

Mas não apenas tributo: também provocação. Um texto assim tão rico, e o contexto em que foi escrito, pareceu-me exemplar para relançar a ideia de futurismo, e procurar a liberdade em que acredito: a de podermos usar todos os objectos sonoros, seja um dó-mi-sol, seja um cluster corrosivo, um barulho de talheres ou um apito, se poeticamente justificados e consequentes. 

Não me parece que a música hoje, salvo raríssimas excepções, nos ofereça lições a este respeito, muito menos toda e qualquer corrente cujo discurso musical se apoie numa qualquer gramática. Desconfio de profetas e de Bíblias. Tonalismo, atonalismo, serialismo, minimalismo, espectralismo - e tantos outros ismos - cobrem-se, para mim, de um ridículo inevitável: a possibilidade potencial de atingir o belo e o maravilhoso, no ilhéu de sentimentos que nos oferecem, acompanhada de uma proibição do belo e do maravilhoso do universo além-ilhéu que é e que pode ser o próprio homem. 

Isto é: seja por razões culturais, seja até por razões físicas, determinado objecto tem, inevitavelmente, determinada função e consequência. Usar apenas alguns desses objectos porque, hélas, nada mais há a dizer, ou nada mais se sente, é legítimo. Usar apenas uns, quando o não uso de outros se deve a um preconceito técnico, ideológico, é amputar a incrível capacidade de comunicação do homem. 

- Quais foram os principais desafios com que se deparou ao ter de escrever uma ópera tão curta?

Os desafios com que me debati neste projecto (ou noutros) pouco tiveram a ver com a sua duração. Há sem dúvida o desafio técnico de adaptar um texto tão acelerado e tresloucado à voz cantada, de forma correcta e interessante. E de conseguir, em escassos minutos, a magia própria desses momentos que nos despertam o imaginário e nos transportam para um sítio outro. Quanto a isso, porém, receio bem estar em Mário de Sá-Carneiro o génio por inteiro.

1 comentários:

  1. Viva Edward
    Claramente respondido.só falta apreciar o resultado deste trabalho que me deixa na expectativa.
    Um abraço até sexta ou sábado ainda não sei.

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